O teatro de bonecos, a criança e a educação

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Márcio Pontes, Cia Polichinelo

Muita gente nos pergunta sobre essa ligação entre os bonecos e a educação. Não é raro falarmos sobre esse assunto em oficinas, palestras ou workshops. Da mesma forma que nos perguntam de que maneira a criança se relaciona com os bonecos.

Para tentar elucidar um pouco o assunto, coloco aqui as respostas de algumas perguntas que nos foram feitas por uma estudante de Taubaté – SP. Como achei bem interessante, disponibilizo aqui.

1. O Teatro pode ser um instrumento para educar? De que forma?

Sim, claro. O teatro pode informar, formar e instruir da maneira mais simples e eficaz possível. Toda a magia do teatro pode falar à criança de uma forma direta, dentro de seu universo de imaginação. Participando como ator ou expectador, a criança pode experimentar situações e pensar sobre cada uma delas, assimilando de forma abrangente o conteúdo proveniente dessa experiência.

2.Como pode ser a aprendizagem de uma criança através de um espetáculo teatral?

Como o teatro fala diretamente ao universo da criança, através de sua fantasia, tudo o que é dito pode ser prontamente assimilado total ou parcialmente (pois aqui vamos ter em mente a idade da criança e a "qualidade" e o conteúdo do espetáculo). Então está aberto um caminho direto para um diálogo com esse "ser em constante formação". O que se diz e o que se vê num espetáculo pode, dependendo de sua força literária ou plástica, proporcionar à criança uma reflexão sobre dado aspecto ou situação e ainda oferecer-lhe informações sobre um determinado assunto, aproveitando esse "caminho livre" que a fantasia proporcionou.

3. Já houve algum caso em que vocês perceberam, através do público, uma resposta de aprendizagem?

Pra saber disso com clareza precisaríamos de mais tempo com o nosso público, o que nem sempre é possível. No entanto, em muitos casos vemos que as crianças se "emocionam" com uma ou outra cena, e isso, para nós, é sinal de que a história tocou em algum "ponto" dentro dela. Com isso ela participou, vivenciou algo que pode gerar um aprendizado – dado o fato que tirará conclusões, pensará sobre aquilo ou falará com alguém a respeito – ou seja, estenderá a vivência para o campo da discussão e da conclusão de idéias.
Há outros casos que notamos a total atenção da platéia sobre algo que o personagem está dizendo e isso denota que ela está assimilando o que está sendo dito. O "quanto" ela vai assimilar daquilo vai depender de diversos fatores: idade, momento de vida, relação e educação familiar, dentre outras coisas.
Paralelamente aos espetáculos, o que posso dizer como experiência pessoal é sobre alguns trabalhos que fiz voluntariamente com alguns amigos. A pedido de algumas pessoas falei, por intermédio dos bonecos, com seus filhos sobre alguns problemas que estavam tendo: alimentação, higiene bucal, dentre outras. O que me disseram é que a partir daquele dia as coisas mudaram, não drasticamente, mas podia se ver um caminho à mudança de hábitos depois daquela "conversa".

4. O que é mais fácil: apresentar espetáculos para os adultos ou para as crianças? Por quê?

Isso é consenso geral – para as crianças! Porque são extremamente espontâneas. Se algo lhes interessa, param pra olhar, mas se não lhes chama a atenção, elas vão embora sem nenhum constrangimento!
O adulto, por educação, acaba ficando, suportando firme quando algo não lhe agrada. Tem vergonha de sair por pensar que todos vão criticá-lo se assim o fizer. Mas a criança não. Ela tem liberdade pra agir da forma que quiser.
E ainda mais: enquanto artistas, nossa responsabilidade sobre o que vai ser dito a uma criança aumenta. Não que se deva ser puritano em tudo, fazendo como alguns que mudam toda a história para poupar os pequenos de um final trágico que poderá traumatizá-los, mas usando de "respeito" ao seu universo.
Tudo depende de "como" falar a ela sobre esse ou outro tema "delicado". E talvez seja essa a grande preocupação ou dificuldade dessas pessoas – o medo de não saber lidar com esse ou aquele assunto.
Porém, quando se tem 40 ou 50 minutos de plena atenção de um público ávido para lhe ver... o que se vai fazer? Sobre o que se quer falar? Muitos artistas desistem

5. Até que ponto o lúdico pode ser positivo, e de que maneira a fantasia pode interferir num processo de aprendizagem infantil?

A criança possui um mundo próprio de descobertas. Como está em desenvolvimento, formando seus conceitos, reafirmando sua personalidade, creio que, psicologicamente, aja da seguinte forma: capte as informações em um mundo externo e o traga para dentro do seu, desconstruindo e reconstruindo as informações a partir de seu ponto de vista.
Ela sabe, com total perfeição, o que é o "mundo real" e o distingue muito bem do mundo do faz de conta, da imaginação. Ela é consciente. Baseado nesse pensamento, um adulto pode falar com ela durante horas correndo o risco de obter resultados pouco significativos. Na verdade ele está fazendo com que ela – para obter informações – permaneça somente no mundo externo, no real, onde não há fantasia. Mas o que dizer se, através de um "meio", conseguíssemos falar à criança dentro do seu mundo? Talvez fazendo uma viagem inversa – o adulto é que vai ao mundo interior da criança e transmite informações reais, apenas estimulando seu aprendizado e assimilação de forma mais intensa e eficaz.
Será que ela não teria uma melhor compreensão do que queríamos dizer?
Então... Qual o meio, qual o estímulo para esse feito?
O lúdico!
Que estímulo maior encontraríamos para falar com ela, em sua linguagem, do que usando a ludicidade? E onde se encontra o lúdico? Em jogos, em cantos, em histórias e, é claro, no teatro (onde "armários" podem falar e até "sapatos" dançam!).
O lúdico é o meio. O teatro pode ser o transporte para esse meio.
Por fim, alguém poderia perguntar se não faríamos com que a criança permanecesse nesse universo por tempo demais e que agindo assim ela poderia perder a noção real do mundo. Não. Ela é consciente! Só creio que assim pode-se criar um meio mais eficaz de, "respeitando-a", estimulá-la em sua busca por informações de forma mais adequada.

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