Por que teatro de bonecos?

(Trecho retirado do capítulo "Içando a âncora" do livro Diário de Bordo – A história da Cia Polichinelo de Teatro de Bonecos)

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[...] Como outros profissionais, acredito que o teatro possui uma base de três pontos que o faz existir de fato: o ator, a palavra e o público. Esses pontos necessitam uns dos outros para que haja ação, para que haja representação e para que uma história possa ser contada.

Seja qual for o meio que o ator utilize para contar uma história, e há uma diversidade de caminhos muito grande, ele vai sempre precisar da palavra, mesmo aquela não dita. Esses dois, o ator e a história, por sua vez, irão necessitar da plateia e ela, por fim, precisará dos dois primeiros para que tudo aconteça.

Dentro desse pensamento, o ator é um condutor, um fio que se vale da representação, do movimento e da voz para ligar uma ideia (de um dramaturgo, ou dele mesmo) diretamente com a plateia.

O boneco é um dos meios do qual o ator pode lançar mão para criar contato direto com o público. Como qualquer outro recurso, escolher os títeres é uma questão de afinidade. Se há afinidade há a crença de que esse é o meio correto para o ator alcançar o objetivo a que se propôs. Havendo a fé há a criação de uma verdade e, por conseguinte, se é verdade para o ator, será também verdade para a plateia. É aí, exatamente nesse ponto, que se cria a cumplicidade entre o ator e o público, colaborando para que teatro de fato aconteça.

Esse pensamento simples também pode nos ajudar a entender que escolher trabalhar com bonecos é apenas uma forma, uma linguagem dentre tantas que nós, atores, estamos utilizando nesse momento para criar essa cumplicidade. Haveriam outras formas, mas no nosso caso, é essa que para nós representa a verdade que mencionei.

Por isso, dizemos que o que fazemos na Companhia é teatro, mas teatro COM bonecos.

Embora essa frase não seja de minha autoria, e sim do nosso amigo Henrique Sitchin, da Cia. Truks, tomo a liberdade de utilizá-la aqui, com toda a permissão de que nossa amizade desfruta, para elucidar o que estou tentando expor.

Permitam-me, pois, divagar um pouco mais sobre a função do ator no teatro de bonecos.

Por muito tempo nos indagamos sobre o nosso papel dentro da arte da representação, afinal somos, antes e acima de qualquer coisa, atores; não utilizar nosso próprio corpo para representar pode causar a impressão de que desenvolvemos um trabalho menor. Ledo engano.

O boneco nada mais é do que a extensão do ator, ele mesmo em duplicidade, um "eu" externado que responde à ação, movimentado por nós. E que reações esse outro ser tem senão as nossas?

Dar-lhes vida é um momento sublime, um momento de criação, e toda essa intimidade criada com esse objeto, agora animado e cheio de vida, nada mais é do que uma relação íntima, quase de pai e filho ou de nós para nós mesmos.

Por um outro lado, quão generosas são essas pequenas criaturas que se deixam manipular e servir de espelho ao ego de cada ator!

Parafraseando a Prof.ª Ana Maria Amaral, uma das primeiras escritoras do gênero a qual tive acesso, o boneco é o "duplo do ator". É ainda o ator, ele mesmo, só que projetado a sua frente e precisando de seus cuidados para existir. Bem, se eles então são a representação de nós mesmos em cena, posso entender que onde houver um bom ator, haverá um bom boneco que, manipulado com alma e delicadeza, poderá encantar adultos e crianças.

Eis aí a clareza da nossa responsabilidade.

Embora seja mais comum ver o teatro de títeres ( ou de animação ou de bonecos, não importando muito a denominação) ser associado às crianças, que se permitem viajar com ele, qualquer outra pessoa que alcance esse mesmo desprendimento pode se envolver e se encantar, à maneira dos pequenos, com o mundo mágico desse teatro. O teatro de bonecos é, pois, uma linguagem que pode atingir a qualquer público, com temas mais leves ou mais densos, bastando para isso encontrar um público que esteja aberto a essa "maneira antiga" de se contar uma história.

Muito bem. Voltemos ao ponto de início deste prefácio: para uma montagem teatral com bonecos, precisamos encontrar atores que se afinem no pensamento de uma forma, para elaborarmos a dramaturgia, são requeridas horas de pesquisa, erros, acertos, e muito, muito trabalho. Já para que haja a cumplicidade da plateia, teremos que redobrar esforços e tudo o que coloquei há pouco deve mesmo ser observado diante do caminho árduo dessa tarefa.

A cumplicidade, aquela mesma tão desejada que faz do momento do espetáculo um momento único, deve provir do fato de estamos totalmente envolvidos com nosso trabalho e com nossa forma de fazê-lo, de estarmos inteiros, crentes de que esse é o nosso caminho e, principalmente, de estamos agindo com coração e alma, ou seja, com a verdade.

Lembre-se: se for verdadeiro para nós, atores, o será também para a plateia.

Se conseguirmos isso tudo, seja lá qual forma utilizarmos, com bonecos ou não, o espetáculo terá cumprido seu papel: o de provocar uma catarse, uma reflexão, um sentimento ou pura e simplesmente o de levar uma boa história ao conhecimento do público. E aí se fez o teatro.

Creio que, em outros termos, assim também é este livro, com o qual, de maneira simples, pretendemos levar nossa história até os leitores, mostrando um pouco de nossa trajetória neste "Diário de Bordo", como é considerado por nós.

Nele colocamos as nossas experiências, nossos erros e acertos que são resultado da busca de nos desenvolvermos (e nos envolvermos) nessa linguagem mágica: a do Teatro de Animação, buscando atingir com ela o envolvimento também da plateia.

A trajetória pode não ser fácil, isso é certo, que a responsabilidade é muita, muita mesmo, mas que tudo é extremamente prazeroso e que, utilizando bonecos ou outras linguagens, ainda assim, o que fazemos é e sempre será teatro!

Márcio Pontes
Diretor da Cia. Polichinelo de teatro de Bonecos